O príncipe e o espectro
Havia, num país muito distante, um rei muito poderoso dono de
toda a região. Esse rei tinha um filho que apesar de ser o herdeiro não era
preguiçoso e gostava de realizar tarefas que deveriam ser feitas por seus
súditos. O príncipe era sonhador como todos os jovens o são. Entre os seus
sonhos estava o de encontrar uma princesa, casar e ter filhos: um ou dois, quem
sabe?
Um dia ao passear pelo reino vizinho conheceu uma princesa linda. Seu
coração se apaixonou e começou a amá-la. Ela era admirável, bela e inteligente.
Marcaram o casamento e o rei deu grande festa de bodas. Para completar a
felicidade do casal nasceram os filhos que eles tanto almejavam: um, dois, mas
não ficou por aí. Veio o terceiro, depois o quarto. Como o príncipe era
diligente, conseguiu fazer prosperar o que o pai havia lhe dado como presente
de casamento. Os filhos, lindos e inteligentes lhes proporcionavam muitas
alegrias. O príncipe se sentia realizado e assim viveram felizes para sempre
como terminam as histórias de príncipes e princesas.
Não, meus amiguinhos, não
foi assim que terminou essa história. Eu vou contar pra vocês o que foi que
aconteceu: Eles estavam tão felizes. As árvores do bosque, de onde se tirou a madeira
para a construção do palácio, pareciam saudá-los, os pássaros soltavam cantos
belíssimos, o sol brilhava com mais fulgor e até a lua era mais resplandecente
a cada vez que eles saíam a passear. Mas em um dia cinzento, de nuvens bem
escuras um monstro terrível, raptou a sua amada e o príncipe sem saber o que
fazer ficou desolado, pois esse monstro tinha fama de invencível e aqueles que
tentavam se aproximar eram devorados por ele. E o príncipe chorou amargamente o
desaparecimento de sua querida. Só não desistiu de viver porque os frutos desse
belo amor revigoravam as suas forças, dia a dia.
No entanto o príncipe não sabia que era apenas o espectro do
monstro que lhe roubara a felicidade. Sim, porque aquele monstro cruel já havia
sido derrotado por um príncipe filho de um Rei, dono de um reino maior que o de
seu pai e que o enfrentara com valentia e audácia. E, como muitas pessoas não
sabiam disso, o espectro do monstro aparecia e causava a dor da separação. E
como naquele Grande Reino as coisas só se sucedem no tempo certo, o Rei
permitiu que o espectro do monstro continuasse a raptar as pessoas até que no
tempo determinado Ele intervenha e o lance num profundo abismo de onde jamais
sairá.
Voltemos ao desditoso príncipe. Cada dia que se passava,
apesar da dor que sentia, recobrava as forças e prosseguia cuidando dos futuros
herdeiros. O seu coração ferido e sufocado nunca mais experimentou a alegria de
amar e ser amado.
Ah! Havia outra coisa que talvez ele não soubesse: é que o
Rei, do Seu trono, o contemplava, ajudava e enviava pessoas para ajudá-lo.
Algumas sinceras, outras interessadas no seu palácio, outras equivocadas e
ainda outras sem nenhum interesse...
O tempo foi passando e a lembrança da linda princesa, embora
tênue, permaneceu em seu coração. E ele tornou-se tão sensível como uma peça de
cristal quebrado que se desfaz em cacos, quais lágrimas brilhantes.
Mas um dia o espectro também o alcançará, pois ainda não
chegou o tempo determinado pelo Rei quando esse tirano não mais será. E o Grande Rei receberá em seu reino a todos
os que foram feridos pelo cutelo fatal, mas confiaram que o Filho do Rei, o
príncipe dos príncipes que venceu o grande monstro - a morte - por preço de
sangue, lhes dará a vida eterna.
Então... já não existirá nem a lembrança da dor, nem as lágrimas.
Sonia Correia.
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